As maiores economias da América do Sul não estão esperando por uma aprovação regulatória para acelerar sua transição para alternativas de ativos digitais, com o Brasil e a Argentina sendo os mais recentes a fincar suas bandeiras na busca por novos territórios financeiros.
Essa mudança foi reiterada esta semana, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) informou que as redes de criptomoedas agora transportam a maioria das transferências internacionais de fundos no Brasil, quase ao mesmo tempo em que surgiram notícias de grupos bancários argentinos criando suas próprias stablecoins em peso, mesmo com a proibição vigente do Banco Central.
A mais recente Avaliação da Estabilidade do Sistema Financeiro do Brasil, realizada pelo FMI e que analisa a situação da maior economia da América Latina, apresentou uma descoberta importante que enfatiza a magnitude do impacto das criptomoedas. Os ativos digitais, especialmente as stablecoins, tornaram-se o principal meio de envio e recebimento de dinheiro no Brasil, após um crescimento constante desde 2017, ultrapassando a taxa de crescimento dos canais convencionais.
Quanto ao apelo das stablecoins para empresas e usuários individuais, a primeira análise do FMI sobre a economia brasileira desde 2018 apontou para transferências mais baratas e vantagens fiscais.
O FMI também observou correlações entre a demanda por stablecoins e indicadores econômicos como o S&P 500, o índice de volatilidade VIX e o Bitcoin, além de mudanças na política tributária. Essas descobertas, segundo o FMI, mostram como a mudança para ativos digitais encontrou seu espaço na estrutura econômica mais ampla do país.
Enquanto alguns comemoram, o FMI, por sua vez, levantou preocupações sobre algumas áreas que o Banco Central do Brasil não abordou em sua supervisão de provedores de serviços de ativos virtuais. Os problemas apontados pelo FMI foram:
O Congresso brasileiro já está trabalhando para que o ativo digital seja devidamente regulamentado pela legislação. O Projeto de Lei 4308/2024 deverá deficlaramente os limites legais das stablecoins, embora já exista uma pressão interna para que não sejam classificadas como moedatron.
O relatório argumenta que, para sanar essas lacunas, será necessário que os órgãos reguladores brasileiros compartilhem as responsabilidades de divulgação de informações com seus pares no exterior.
Ao sul da fronteira, o interesse está em stablecoins denominadas na moeda local da terceira maior economia da América Latina. Segundo a Iproup, dois conglomerados bancários estariam preparando tokens atrelados ao peso filipino, voltados para instituições em vez de poupadores comuns, para atender operações de tesouraria, pagamentos acionados por eventos on-chain e empréstimos com garantia.
Um deles, o BIND Group, que administra mais de US$ 2 bilhões em ativos e é proprietário do BIND Banco Industrial, está desenvolvendo seu token por meio da BEN, uma provedora interna de serviços de ativos virtuais. A iniciativa traccom notícias divulgadas no início do mês, quando o gigante bancário firmou uma parceria com a Circle para atender clientes institucionais.
O outro grupo da dupla, o Petersen Group, que detém e administra diversos bancos regionais, está desenvolvendo um produto DIPE independente. Seu projeto conta com o apoio da Lirium, uma empresa de criptomoedas como serviço, e já possui um white paper.
Desde maio de 2022, o Banco Central da Argentina proibiu que bancos privados ofereçam serviços de criptomoedas diretamente. Por isso, ambos os bancos estão executando seus planos por meio de subsidiárias.
Essas soluções alternativas podem nem ser necessárias, já que, segundo relatos, o banco central está considerando suspender a proibição. No entanto, esse caminho ainda não está claro, pois o órgão regulador de valores mobiliários do país bloqueou a stablecoin argt peso por considerá-la um valor mobiliário oferecido sem a devida conformidade.
A pressão por tokens nacionais reflete um debate mais amplo na região. Em um artigo para o Fórum Econômico Mundial, o fundador e CEO da Ripio, Sebastián Serrano, observou que moedas lastreadas em dólar, como o USDT da Tether, ganharam força na América Latina como proteção contra a inflação, mas alertou que a dependência de dólares digitais emitidos por outras moedas prejudica as ferramentas que os formuladores de políticas utilizam para gerenciar sua própria oferta monetária. Sua proposta é em favor de stablecoins lastreadas em moedas nacionais.
A escala explica a importância do assunto. A Câmara Digital reportou um volume de transações com stablecoins de US$ 324 bilhões na América Latina em 2025, um aumento de 89% em relação ao ano anterior, com as stablecoins representando mais de 90% dos fluxos de criptomoedas no Brasil e mais de 60% na Argentina. O mesmo relatório constatou que 71% das instituições latino-americanas já utilizam stablecoins para pagamentos internacionais, a maior taxa entre todas as regiões.
Se você está lendo isto, já está um passo à frente. Continue assim assinando nossa newsletter.