TradingKey - A alta nos preços globais de DRAM está evoluindo de uma crise do setor para uma tempestade jurídica.
Samsung, SK Hynix e Micron ( MU), as três gigantes dos chips que controlam quase 90% da participação no mercado global de DRAM, estão enfrentando uma ação coletiva em um tribunal federal da Califórnia, acusadas de conluio para restringir a capacidade de DRAM tradicional sob o pretexto de uma transição estratégica para a Memória de Alta Largura de Banda (HBM) de inteligência artificial, impulsionando os preços relacionados a dispararem aproximadamente 700% nos últimos quatro anos.
Esta alta nos preços, apelidada de "RAMpocalypse", não apenas forçou fabricantes de dispositivos como a Apple ( AAPL) e outras fabricantes de dispositivos a aumentarem os preços, mas também colocou o cenário competitivo oligopolista do setor de memórias em julgamento por violações antitruste.
O argume nto central desta ação judicial visa diretamente as estratégias de alocação de capacidade das três gigantes de memória. Representando consumidores e empresas que adquiriram produtos contendo DRAM convencional nos últimos anos, os autores da ação alegam que a Samsung, a SK Hynix e a Micron utilizaram seu domínio oligopolista no mercado global de DRAM para coordenar cortes de capacidade na memória comercial, como DDR3 e DDR4, sob o pretexto de transição para o HBM, criando assim, de forma artificial, uma escassez de oferta.
Dados citados na petição inicial mostram que, desde 2022, as três empresas redirecionaram cerca de 25% de sua capacidade de wafer de DRAM para a produção de chips HBM. Como a área física de um chip HBM é o dobro da de um chip DDR padrão, isso significa que a produção de cada chip HBM consome o dobro da área de wafer.
Embora a capacidade global total de wafer de DRAM esteja projetada para crescer 14% até 2026, espera-se que a capacidade alocada para a DRAM convencional cresça apenas 10%. Esse descompasso entre oferta e demanda causou diretamente o agravamento contínuo da escassez de oferta de memória voltada ao consumidor.
A ação judicial sustenta que as três gigantes poderiam ter expandido simultaneamente a capacidade de DRAM convencional para suprir esse déficit, mas optaram por concentrar o redirecionamento de suas capacidades para o segmento de HBM, que é mais lucrativo — onde a margem bruta dos chips HBM é de três a cinco vezes maior do que a da DRAM convencional.
Alega-se que essa alocação seletiva de capacidade constitui uma nova forma de 'cortes coordenados de produção', o que acabou fazendo com que os preços da DRAM disparassem em um total acumulado de aproximadamente 700% nos últimos quatro anos.
Os recentes aumentos generalizados de preços da Apple para suas linhas de produtos iPad e Mac foram citados como um excelente exemplo de repasse de preços, com os autores da ação argumentando que esse é o dano direto resultante da contração artificial da oferta upstream.
Em 2005, a Samsung declarou-se culpada perante o Departamento de Justiça dos EUA por manipular os preços de DRAM entre 1999 and 2002 e pagou uma multa de US$ 300 milhões, que na época foi a segunda maior multa criminal da história antitruste dos EUA.
No mesmo ano, a SK Hynix também se declarou culpada e foi multada em US$ 185 milhões. Somadas à multa da Elpida, as penalidades totais no caso atingiram US$ 731 milhões, com vários executivos envolvidos condenados à prisão.
A denúncia cita explicitamente esse histórico, tentando provar ao tribunal que as três empresas têm um padrão sistemático e repetitivo de comportamento colusivo. Os autores da ação argumentam que a manipulação de preços anterior foi alcançada pela coordenação de produção e cotações, e que agora está apenas sendo rotulada de forma diferente como a "transição para o HBM", enquanto a essência continua sendo o uso de sua posição oligopolista para controlar artificialmente a oferta do mercado.
Esse histórico anterior serve como um forte precedente para as alegações atuais, ao mesmo tempo em que eleva os custos jurídicos e de relações públicas para a defesa dos réus.
Independentemente de como o processo se desenrole, há um amplo consenso de mercado de que é improvável que os preços elevados de memória se revertam no curto prazo. A projeção mais recente da Jefferies mostra que, no terceiro trimestre de 2026, os preços de memória subirão mais 40% a 50% em comparação ao trimestre anterior, seguidos por um aumento adicional de 30% a 40% na comparação trimestral no quarto trimestre. Para o ano de 2027 como um todo, os preços ainda devem crescer de 40% a 45% na comparação anual, sendo que uma desaceleração substancial nos preços não é esperada antes de 2028, no mínimo. Isso implica que as pressões de custos enfrentadas pelas empresas downstream e pelos consumidores finais persistirão por um período significativo.
Em relação às tendências do setor, a HBM continuará a canibalizar a capacidade de DRAM tradicional, com projeções de que a HBM representará aproximadamente 25% da capacidade global de wafers de DRAM até 2026, enquanto a demanda de servidores de IA por HBM cresce a uma taxa anual de cerca de 70%. Samsung, SK Hynix e Micron também detêm o monopólio no setor de HBM, controlando juntas mais de 95% da participação de mercado global de HBM, o que lhes permite continuar ditando o ritmo da alocação de capacidade.
Especialistas jurídicos apontam que processos antitruste desse tipo costumam levar anos para serem resolvidos e, mesmo que a manipulação de preços seja comprovada ao final, é improvável que altere a dinâmica de oferta e demanda do mercado de memória no curto prazo. Para os consumidores, isso significa que eles precisarão se preparar para preços de memória elevados por um período prolongado, enquanto ainda resta saber se essa ação judicial conseguirá quebrar o oligopólio do setor de memória.